Chá de Carqueja

 

 

Hoje acordei com a língua seca,

sentindo gosto de cabo de guarda-chuva

O mau humor veio junto com a sede

E lá fora chovia canivetes,

Caía água pra cachorro  beber em pé!

Desci a escada aos trancos e barrancos,

Blasfemando contra tudo e todos.

Na cozinha a bendita Benedita

Com um lenço branco acenando nas mãos,

Movimentava os braços espantando o ar rarefeito,

Fazendo orações exorcizava os maus pensamentos:

 

-Sai daqui seu capeta, fique longe de mim!

-Cuidado, não faça retreta!

-Tenho a proteção do Senhor do Bom Fim!

 

Eu, já conhecendo das manias e mezinhas,

Sentei-me num canto com uma xícara na mão.

Na xícara água fervendo a queimar meus dedos,

Não sabia da dor de cabeça fugir sem palavrões,

Ou fazer blasfêmia da água fervendo para o ritual.

A bendita Benedita, deu um giro, revirou os olhos

E como voz cavernosa falou:

 

-Não existe feitiço, ou mal mandado!

-Que escape de meu encantamento!

-Na minha tropa não sou comandado!

-Faço e desfaço sem falso juramento!

 

-O que você tem, é dor de pinguço!

-Levante, abra bem os olhos e braços!

-Respire fundo, esqueça da noite de jagunço!

-Venha para mim, chegue junto para o abraço.

 

-Isso, faça um quatro de pé, não de quatro!

-Seja homem, não faça cerimônia de ateu!

-Seja homem, não vire um assustado rato!

-Isso meu dengo, chega perto, ninguém morreu!

 

Para cumprir o ritual, a bendita Benedita juntou,

Segurando nas mãos 3 gramas de carqueja seca,

Um favo de mel e muita reza ao Santo de Devoção,

Com um jeito moleque, na xícara quente espalhou

 

A mistura na água fervente virou um santo remédio,

Curou a ressaca, me fez esquecer até o falso assédio.

 

Ramoore

 

 

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