De Grão em Grão...




Hoje, a bendita Benedita chegou cantando
Lembrando samba dos tempos de fartura
Entrou com os olhos sorrindo o coração
No branco marfim do riso livre e puro:


- Aproveitei das ofertas e fiz as compras do mês!
- Comprei do sal ao palmito!
- Sabe, abaixou o preço do óleo!
- O café é que está mais caro.
- Também, comprei chá de camomila!
- Dizem que relaxa!
- Ando com uma batedeira e uma quentura.

Ajeitando dos fartos seios deu um suspiro
E começamos a conferir o rol comprado
O entregador do mercado parecia em retiro
De carnaval sem mãos em fato consumado

Olhava meio de lado sorrindo indagação
Da minha pouca roupa e riso feito parceria
Ao abaixar da Bendita de saia no chão
Pegando dos grãos soltos em meio à folia

Enfim sorrindo da cor feita arco-íris, piscou
Um sorriso matreiro e feliz na cumplicidade
Do convite para catar do arroz com feijão
Preto misturado ao mulatinho, um entre dois

Devagar e sentindo das mãos juntas separando
Dos corpos os suores iguais e trocados na ação
De catar grãos um por um e todos escondendo
Do desejo por um bom prato de arroz e feijão


Enfim, terminamos a tarefa do catar feijões
Eu sem falar da falta de jeito e com muito tato
Lembrei da ocasião e com ares de bom ladrão
Junto à gorjeta ao entregador esqueci o recato

A bendita Benedita suando e praguejando muito
Não sabia se ria ou chorava da minha ousadia:



- Cara safado!
- Não tirou os olhos de cima!
- Olhava em cima e em baixo!
- Desajeitado que nem ele só!
- Imagine, deixar cair os sacos de arroz e feijão!
- E, você? Não perde tempo!
- Que não te conhece, que se cuide!

E falando e resmungando foi colocar água no fogo.

Da receita do arroz com feijão?
Basta ter da fome o prato na mão.

Ramoore
 

 

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