Dobradinha...




Depois da longa caminhada em meio ao meio fio
Seguindo em sentido contrário de quem vai e vem
Pisando em solas importadas compradas na liberdade
Encontro a famosa casa de carnes do primo do Zécão...

Lembro da confusão com o pedido da Bendita Benedita:

- Meu dengo, eu disse bucho.
- Bofe, é o dono do açougue!
- E cá entre nós, é um bofe para ninguém botar defeito!
- Bucho, é a mulher que é a dona do pedaço.
- Não se esqueça das minhas recomendações;
- Compra o bucho e peça ao bofe para escolher o melhor.
- Aproveita e leva a listinha dos ingredientes.
- O que não tiver no açougue, compre no mercado.
- Antes que me esqueça...
- Digo ao primo Ricardão que vamos fazer uma dobradinha...
- Ué, por que a cara de espanto?
- O Zécão adora uma dobradinha!
- E você, nunca experimentou?
- Não sabe o que está perdendo!
- Para com essa cara de sacana...
- Vá logo às compras!!!
- Não esqueça a listinha:

Ingredientes

1kg de dobradinha (cortada em tiras)
300g de feijão branco
2 colheres (sopa) de óleo
100g de toicinho defumado
2 cebolas
1 folha de louro
2 dentes de alho amassados
2 cenouras
4 tomates (sem pele)
1 paio
1 linguiça calabresa
125ml de vinho branco seco
1 tablete de caldo de carne
1 pitada de tomilho
1 amarrado de cheiro verde
sal a gosto
pimenta do reino a gosto.


Fazendo ares de quem vive de bem com a vida bem dividida
Sem tropeçar no desamor de noites acordadas sem repartir
Do travesseiro entre as pernas cruzadas na espera do calor
Em meus braços capengas de abraços firmo o olhar e entro:

- Bom dia. Tem bofe para vender?
- Não! Não é bofe... é...

Parece que do paraíso abriram todas as portas encantadas
Entre troncos bem torneados me deixo ficar no deslumbre
Com olhos que deixam à boca sedenta o prazer em olhar
Tiro os óculos escuros e da claridade vejo o deus-ébano...

Esqueço do travesseiro capanga das noites mal dormidas
E com a mais pura das intenções penso na dobradinha
Fazendo do sorriso trocado a cumplicidade esperada
Finalmente consigo sentir dos pés estarem na terra...

E entre cacos e improvisos deixo falar a razão:

- Por favor...
- 1 kg de dobradinha cortada em tiras.
- 100 g de toicinho defumado.
- 1 lingüiça calabresa...
- Espere, deixa-me pegar a lingüiça?
- Hummm! É cheirosa...
- Olhe a Benedita e o Zécão estão convidando para uma dobradinha!
- Quando?
- Você vai?
- Eu? Adoro dobradinha e você?
- Vai! Ótimo...
- Não vejo a hora de....
- Desculpe pensei alto.
- Não. Não precisa mandar entregar.
- Obrigado e até logo....

Carregando meus devaneios quase tropeço na construção mal feita
Sem reparar das obras faço cumprimento ao pedreiro sem camisa
E olhando para trás em passos que voltam sigo já não sei pra onde
Paro em frente à banca de secos e molhados e procuro a listinha...

Vendo o balconista em calça larga e solta na cintura a descer
Abaixando para na concha pegar o feijão esqueço os 300 gramas
E compro logo um quilo do branco marcado e com etiqueta
De falsa madame completo a compra dos ingredientes...

Com tantos pacotes e sacolas chamo por um táxi amarelo
Sinto o sol e o suor quente molhando minha vontade
De chegar sem pressa em casa e fugir aos olhos do retrovisor
Verde no sinal que dá passagem ao desejo da paquera...

Levantando do salto os pés trocados chamo o elevador
Na espera da gentileza do porteiro entrego os pacotes
Em mãos que entregam a correspondência de contas
A pagar de meus pecados faço cara de anjo e entro:

- Oi... Bendita Benedita!
- Comprei tudo da listinha...
- O bofe vem para a dobradinha...
- Adivinha quem me deu uma cantada?
- O mercado está em obras...
- Sabe o Saul...
- É... É aquele pedreiro...
- Não... O da reforma do 301.
- Está trabalhando no mercado.
- Tá tudo aí...
- Vou tomar um banho...

A bendita Benedita conferindo tudo e sem entender nada
Ri com as mãos catando dos feijões brancos o preto
Das minhas obscuras reflexões de uma manhã de compras...

- Calma, meu dengo!
- Parece que a dobradinha mexeu contigo!
- Conheço esta sua carinha de anjo!
- Que bofe vem comer a dobradinha?
- O Ricardão?
- O Saul?
- Olhe! Cuidado com o bucho.
- A mulher é uma fera.
- Está certo vá tomar seu banho.
- Vou começar a preparar a dobradinha...

Modo de fazer:
Ponha o feijão branco de molho de véspera.
Lave bem a dobradinha cortada, com limão.
Afervente por 10 minutos, escorra e renove a água.
Junte uma cebola, a folha de louro e o sal a gosto.
Deixe cozinhar. Em outra panela, cozinhe o feijão,
sem deixar ficar muito cozido.
A parte, faça um refogado com o óleo, o toucinho,
a outra cebola restante, os tomates e o alho.
Acrescente ao refogado o paio e a lingüiça cortados.
Adicione ao mesmo a dobradinha e o feijão branco, já preparados.
Cozinhe tudo e acrescente o vinho branco, o tablete de caldo de carne,
o tomilho, o cheiro verde, o sal e a pimenta.
Deixe ferver mais um pouco e sirva quente.

Embaixo do chuveiro sinto da carícia de minhas ilusões no dia
Da dobradinha nascem triângulos quadrados em formas sinuosas
De horizontes rebuscados na arte de fazer das palavras a poesia
Das esquinas do meu viver sempre na realidade de fazer presença...

Acompanhando a dobradinha não esqueça do arroz soltinho na travessa
Uma couve bem fininha e antes de tudo rodelas de rabanete com sal
Despertando do apetite a vontade de quero mais...

Da sobremesa cada um tem sua preferência na cor e sabor
Eu que prefiro não manter o toque de mistério...
Da receita não faço segredo...
E depois de tanto flerte...
Acordo com o travesseiro em dobradinha...

Ramoore

 

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