Lagarto com batatas...



Ontem cheguei tarde e trocando as pernas,
Nos pés uma meia de algodão, outra de seda
A cueca na pressa, ficou esquecida
e amassada em suas mãos, escondida.
Deitei com cheiro do amor sem rodeios...
Acordei com a bendita Benedita a cantar
de cantigas de roda ao rap do Zécão:

- Você que é meu camarada
- Vive nas esquinas atrás das minas
- Vê se não vacila meu brother
- A Ditinha é minha pra valer...

Eu estava meio atordoado e meio dormindo,
imaginei um bom-dia que ficou abafado
pelo som da Benedita a repetir o refrão
e mexer com as cadeiras segurando
os fartos seios e marcando o ritmo
com os pés esfregando o pano de chão,
para esconder o café derramado
passei a mão na mesa e limpei
no pano de prato bordado...
O lagarto já descongelado perdeu
cem gramas do quilo e meio,
fatiado e temperado com alho,
sal, cheiro verde, noz moscada,
uma cebola grande em rodelas,
reguei com uma boa dose de vinagre
e deixei apurar o tempero.
Coloquei na panela de pressão,
o óleo de soja e uma colher de café
de açúcar para dourar ao ponto escolhido.
A bendita Benedita olhava e suava
do tanque para a cozinha indo e vindo
com ares de sacana perguntou:

- Quer uma mãozinha?
- Adoro comer lagarto.
- Vou descascar as batatas!
- Quantas?

Respondi meio sem ouvir a pergunta:

- Depois da primeira, perdi a conta.

A Benedita deu uma risada e cantando
da panela velha, as cinco batatas escolhidas
foi descascando e cortando ao meio...
Olhando para o dourado do açúcar senti o ponto
e fui colocando as fatias do lagarto uma a uma,
deixava dourar um lado para virar para o outro.
Depois, juntei um tablete de caldo de picanha
e coloquei resto do caldinho do tempero,
tampei a panela e marquei trinta minutos,
mas, antes, aos vinte, já abri para verificar o caldo
e resolvi espetar o lagarto para ver do macio,
senti do garfo penetrar sem muita dificuldade,
quase no ponto, o caldo estava suficiente,
tampei novamente a panela
e por dez minutos esperei...
Bendita já tirava as batatas do microondas,
(ficaram por quinze minutos, na temperatura máxima)
e escorria a água na pia e no chão
pingava o suor de uma manhã quente
depois de uma noite de samba, rap e Zécão.
Olhei para Benedita e perguntei:

- Cadê a caçarola grande?

Benedita olhou meio de lado e disse:

- Valeu a pena?
- Foi bom para você?

Peguei a caçarola e acendi o fogo,
abri a torneira para esfriar a panela de pressão,
abri a tampa já resfriada, e com cuidado
fui tirando as fatias do lagarto, uma a uma
para colocar na caçarola e com o caldo fritar,
sem olhar para Benedita, disse de repente:

- Uma delícia, melhor impossível!
- No ponto certo!

Benedita colocou as batatas na caçarola
e derramei o restante do caldo, tampei a caçarola
e deixei as batatas pegarem cor e tempero.
Depois de dez minutos em fogo brando,
vi descendo a escada, Benedita e a trouxa
das roupas de ontem, rindo e resmungando,
ela e seu jeito sacana de pensar alto:

- Precisa trocar de carro!
- Onde já se viu!
- Dentro do fusca, ficar pelado!
- Esqueceu da cueca?

Por sorte minha, a campainha tocou,
quase trombei com a Benedita, fiz um sorriso
abrindo a porta com olhos de bem querer,
esqueci de meu embaraço e senti do abraço...
Benedita, lembrou de sair bem de fininho,
não esquecendo de dar o ar da graça, disse:

- É, acho que está na minha hora.
- A mesa está pronta.
- Coloquei o lagarto na travessa.
- A carne fatiada no centro.
- As batatas ao redor do lagarto..
- Tem arroz, feijão e salada de agrião.
- Vão comer agora, ou depois...

Ramoore

 

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