Sopa de Feijão Preto

 




Em dias frios na falta dos carinhos seus
Meus dias tornam-se malqueridos na ausência
Trazem da espera de seus braços a saudade
E deixam um gosto amargo de solidão...

Fico a deriva na maré baixa vendo da distância
Nasce do desejo o desejo com cheiro de suor
Sinto do peito o bater apressado de meus pés
Descendo as escadas na hora marcada...

Encontro da porta fechada sem abrir o sol
Olho da rua deserta em noite de inverno
No cinza de meus devaneios tropeço no tapete
Sem desabafo escondo minha incerteza...

Fujo para o refúgio no dengo da Benedita
Fazendo ares de desamparo colo no colo
Farto dos seios quentes sem criar fantasias
Deixo das mãos no encontro da compreensão...

E do riso sempre sacana na voz da razão:

- Ué! Meu dengo...
- Está com uma cara de Madalena Arrependida!
- Parece que atirou pedra na cruz!
- Cruz-credo!
- Acho que é por causa do dia da eleição...
- Não se preocupe, use o bom senso!
- Da experiência não oculte na transparência, podem ver!
- Use a consciência na pesquisa da vida pregressa do escolhido.
- Não adianta mudar as moscas, sem limpar o atrativo!
- Enfim, não deixe o fim legislar sem nascer demérito.
- Hum!
- Depois de tanto blablablá...
- Nada melhor que um café.
- Quer um café fresco?
- Está quentinho...

Sem esconder do espanto e sem fazer cara de santo
Deixo do divagar em voz alta meu baixo astral:

- Tenho certeza de que não fiz nada de mais...
- Eu estava apenas olhando...
- Os cabelos eram negros,
- Os olhos negros pareciam chamar ao pecado...
- E eu apenas troquei endereços!

A bendita Benedita sem deixar das mãos na cintura
Disse do fato ser surpreendente:

- Tenha razão, meu dengo!
- Uma simples troca de olhares não é um ato, é um fato.
- Embora o chamado do pecado tenha sido forte...
- E o número do telefone não tenha atendido!
- Você não insistiu...
- Ainda bem!
- Veja se toma juízo!
- Ou vai acabar ficando sem partido...
- Sabe, eu estou pensando em fazer uma Sopa de Feijão Preto.
- Consegui uma receita com a Irene.
- Ela disse que é uma delícia.
- Acho que temos todos os ingredientes.
- Enquanto dou uma verificada na despensa e na geladeira.
- Você podia descer e comprar um vinho!
- Compre o Madeira Seco.
- Assim aproveito na receita.

Eu sem inventar desculpas para não ir ao Supermercado
Bem depressa consulto na agenda o número não atendido
E assobiando a desilusão não espero do elevador chegar
Pulando os degraus encontro da rua e da esperança...

Esqueço dos dias frios e da ausência de seus carinhos
Divididos e sempre escondidos em dias não meus
Sem hora marcada na chegada e com hora na partida
Mando para o inferno meus queixumes e seus ciúmes...

Usando do hábito e sentindo o perfume de seus lábios
Disco seu número e espero completar minha ilusão
Fico com cara de otário ouvindo um falso engano
Rio da minha indecisão e lembro da cor do feijão...

Imagino a cara da Benedita com a cara nova a chegar
E bem devagar olhando para os lados faço a chamada
Da linha trocada ouço a voz do tesão marcar presença
Nas nuvens volto sem pressa espero do elevador...

Com o vinho escolhido e sem esconder minha volúpia
Deixo dos sentidos minha atenção em sua espera
A bendita Benedita faz ares de famosa cigana
E sem ver nas cartas a linha do destino adivinha:

- Então, meu dengo!
- Comprou o vinho?
- Fez a famosa ligação?
- Já sei, convidou para jantar!
- Poder ficar tranqüilo...
- Ligaram pedindo desculpas pelo mal entendido.
- Ah! O mais importante. Hoje não vai aparecer!
- Não sei porque estou falando...
- Você já está em outra.
- Mas, não esqueça da experiência.
- Vem cá, vamos abrir o vinho.
- Calma, segure firme...
- Isso, agora o cálice para a receita.
- E meu gole para ficar de boca fechada.
- Prometo que não vou contar nada.
- Olhe vou terminar a janta e depois vou sair com o Zécão.
- Você tome cuidado para não arranjar confusão.

Eu de copo na mão fico esperando da porta o sorriso
Sem o pensar da hora de ir embora,
Sem o antes e o durante programados.
Penso do depois e da Sopa de Feijão Preto.

 

Ramoore




Sopa de Feijão Preto


Ingredientes:
- 500g de feijão preto
- 2 cenouras picadas em cubos
- 1 cebola picada
- 2 talos de salsão picados
- 1,5 litro de água
- 500g de músculo bem limpo
- 2 dentes de alho picados
- sal
- pimenta do reino
- 1 cálice de vinho madeira seco
- suco de 1/2 limão
- 1 ovo cozido
- creme azedo, opcional


Modo de preparar:
Deixe o feijão de molho na véspera.
Numa panela grande, refogue as cenouras, a cebola e o salsão até amolecer.
Acrescente o feijão, a água, o músculo, alho, sal e pimenta do reino.
Cozinhe tampado, em fogo baixo por 2 horas.
Remova o músculo e corte-o em cubinhos.
Reserve. Bata a sopa num liquidificador.
Se ficar muito grossa, coloque um pouquinho de água.
Um pouco antes de servir, aqueça, coloque o vinho madeira,
o suco de limão e os cubinhos de carne.
Decore com fatias de ovo cozido
e sirva bem quente, com uma colherada de creme azedo, se assim preferir.

 

Receita do Site de Irene Serra

Boca Boa

 

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