"DIGAM QUE NÃO ESTOU"


Digam que não estou.
Intransitivamente.
Se exigirem um objeto abjeto,
digam que estou um crápula.
Se reivindicarem complemento,
digam que foi fixado
nas enzimas catalisadoras da minha sordidez.
Se, ainda assim, perguntarem pra onde fui,
respondam que saí aquariando fevereiros
de gandaias pela vida afora.
Não estou para os vendedores
nem para os seus cobradores,
telefonemas enfadonhos ou declarações amorosas,
falsas ou verdadeiras,
para homens atordoados de trovões,
ou mulheres resplandecentes de relâmpagos,
para crianças chorando com fome ou gritando de dor,
para os seus pais aflitos envoltos no manto da desgraça
e recobertos com o pálio da miséria,
para banqueiros, salafrários, santos, agiotas,
agitadores, pacifistas, pedintes, prêmios de loteria,
automóveis (do ano, do mês, do dia, da hora ou do minuto),
amigos prestantes ou afoitos desafetos
afeitos a afetações de amizades,
para luares de prata ou aluás elaborados
com o néctar dos deuses do Olimpo,
para cavalheiros, cafajestes, gentis-homens, ou crápulas como eu,
para o papa, para o bispo, para o pároco e para todo o clero,
para o dalai lama em suas vestes vermelho-alaranjadas
e para o dalai lodo vestido de verde musgo,
para os loucos de paixão ou de loucura mesmo,
para os bêbados, para os ébrios de ambições
e os sóbrios consumidos
nas chamas das águas ardentes da abstinência compulsória,
para a puta mais safada
ou para as freiras cobertas,
da cabeça aos pés,
com o hábito da caridade,
para leides dai,
ou para lordes dão,
para príncipes, ou para molabentos,
para seres imaculados recendendo a sândalo,
ou lazarentos exalando, em vida,
os fedores da decomposição cadavérica.
Digam que não estou pra “seu” ninguém.
Exceto para a senhora morte.
 

Ray Silveira


 

 

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