Para quem do abandono no travesseiro emprestado,

esquece que até o chinelo foi emprestado!

 

 

    Foi em um anoitecer insólito, incomum aos meus dias.

Depois de números e números que não me pertenciam,

 mas que garantiam a soma de meus créditos

 junto aos débitos de nosso dia a dia na sobrevivência.

Cheguei suado, cheirando ao ônibus,

com o cheiro de outros iguais seres humanos

em meio ao desumano transporte de almas que,

igualmente, buscavam o caminho de casa.

Por sorte não tinha a chuva chegado

e o chão de barro não existia a minha espera,

só a poeira amiga da terra e inimiga de meus olhos.

A rua continuava parada com as crianças fazendo suas travessuras

com amarelinhas e pipas, sem contar com a bola

que sempre acertava o gol de minha paciência,

quando estamos sós, denominamos cada parte do corpo

em acordo com a solidão preterida aos parceiros pretendentes,

ao menos nos devaneios.

Já que a bolada doeu e me fez pensar em você,

o anoitecer insólito trouxe sua lembrança de cama repartida

e espaço dividido entre carícias e prazeres,

não que fosse dolorido ter minha paciência ocupada por sua insistência ,

mas já tínhamos passado em tantas camas e parceiros trocados

que nossas lembranças estavam adormecidas

em um passado que pertencia à saudade.

Você sabia que a saudade é cúmplice da procura,

que fez com que ao abrir o portão e sentir a falta da rosa na roseira,

o cachorro quieto, os gansos em silêncio,

os faisões sem fazer os costumeiros votos de boas vindas,

eu pensasse em você, não sei se pela rosa,

ou pela ausência do barulho de meus alegres companheiros.

As luzes estavam acessas, talvez, pelo esquecimento da faxineira,

ou pela prevenção do vizinho na hora de minha chegada

depois de um dia cheio de muito trabalho, encontros e desencontros.

Encontrei seu sorriso junto à porta,

o seu cheiro misturado ao da pizza no forno,

a garrafa de vinho, a mesa arrumada

com minha nova toalha de linho desbotada,

sem esquecer de minha rosa abortada da planta mãe.

Sorri meio sem graça, beijei sem graça qualquer

e num abraço sem jeito de ter você em meus braços

deixei seu corpo sentir o meu corpo suado.

Foi quando a Lasie lembrou da fome

e eu de um banho tomar, em meio a latidos

e ouvindo os gansos chamarem seu protetor.

Pedi um tempo a sua saudade e fui cumprir minha rotina.

Alimentei e tratei a todos meus companheiros,

no chuveiro deixei a água descer para lavar ao corpo suado,

agora com seu cheiro a dividir

e escorrer em meia a espuma amarelada de poeira e sabonete Lux,

ri das estrelas que abusam em mostrar

a quantidade de espuma de seus banhos televisados

 em banheiras de mármores brancos

iguais a lápides de cemitérios antigos nos dias de finados.

Como não sei se sou estrela nos céus de sua espera,

resolvi me enxugar e sair

 para matar em máscara do engodo sua vontade em ter meu corpo.

Seus olhos brilhavam na presença de meu corpo seminu,

seus cabelos ainda eram negros e os meus

grisalhos anos de sua ausência

traziam marcas diferentes aos sabores da troca esperada.

Foi quando de seus lábios, o mel deixou de fluir

e a ousadia de ter invadido meu espaço,

de ter colhido minha rosa,

 de não saber fazer pizza

e de não saber escolher a toalha de mesa,

gritaram em minha privacidade.

Você, simplesmente, esqueceu sua ausência

e desprezou aos meus companheiros,

querendo impor sua presença em uma rotina

que já não pertencias.

Com o corpo suado na indignação da agressão,

cobrado na estima preferida,

e cuidados primeiros com os de casa,

eu me cobri tremendo com frio de sua distância aos meus dias.

Lembrei de outras noites não insólitas e que já faziam parte de mim,

de você até a saudade querias levar,

a porta está aberta, não se acanhe pode sair,

troque apenas os chinelos emprestados, por seus sapatos.

E deixe que minha quizila, eu mesmo curo.

 

Ramoore

 

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