JUSTINO

 

 

 

Trazia botas velhas, calçadas em pés descalços,

calças e camisa desbotadas cobriam um corpo,

outrora colorido em esperanças e crenças.

Vinha, não desta vida, não deste mundo.

Não sorria.

Lágrimas não existiam em seu olhar.

Vinha, simplesmente.

Chegou e entrou em forma.

Seu olhar morreu em meio a tanta disciplina e ordens,

obedecidas em silencio,

de quem não conhece sócios,

entidades, ou luxos beneficentes dos bazares caridosos,

em destacar solidárias matronas que fazem amor.

Sentia um pulsar dolorido do peito ossudo e frio,

onde morava um coração, batia com os dedos,

presos nos bolsos das calças,

ora em uma moeda,

ora na pele marcada do sexo,

 imóvel e triste das noites vazias.

Ontem, vivia carregado de amores,

uma casa, uma mãe, um pai,

irmãos e até o leão,

com suas manchas pretas no corpo branco,

que ficou vermelho,

igual ao vestido que ela vestiu para ir ao cinema.

Quando o carro o atropelou,

urrava, gemia baixinho,

no colo de quem muito beijara,

com sua língua quente e úmida de carinhos.

Morreu, cavou aos pés da mangueira dos tempos de moleque,

crucificando um gostar tão puro ao correr em busca de um afago.

Ria, bulia em seus seios fartos,

cobertos em decote de um sutiã branco na pele morena de Maria.

Ficava dois dias da semana,

fazendo ninar nas coxas roliças,

na hospedaria de D. Francinéia,

velha e pintada.

Mordia o nu do travesseiro,

quando acordou molhado,

suando prazer e dor nos lençóis

manchados e pintado de percevejos,

velhos companheiros nos dez anos não vividos.

Seus dedos, continuavam a bater.

Existia uma vontade de sair correndo e beijar as mãos,

que colocavam cigarros,

revistas velhas,

meias novas

e até uma cueca branca,

 como os cabelos que sorriam para ele.

Beijou, sorriu.

Deixou caírem os cigarros, a

s revistas e as meias.

Só a cueca ficou presa entre os joelhos que tremiam,

fazendo lágrimas nos olhos.

Quando se afastaram, ouviu os cabelos brancos,

indignados, limparem as mãos

e repetindo para o sempre próximo.

Repetia,

 o próximo,

o próximo,

o próximo...

Acendeu um cigarro,

fazendo fumaça para a fome,

 sentado no cimento de um banco deserto em um pátio de vidas iguais,

indiferentes aos números registrados no livro negro.

Sentia o sol, queimando os dedos,

 jogou fora a brasa do cigarro.

Andando e pensando,

 ouvindo sempre as mesmas vozes,

na mesma noite de músicas e risos.

Quando, fazia amor com sua mulher,

 dois dias na semana, pensou no feriado,

multiplicou os dias na semana

e a matou.

Chorava frustrações,

não queria fugir.

Beijava o frio de Maria,

quando o delegado chegou.

 

 

Ramoore

 

 

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