O espantalho Jeremias


 

 

Em um campo coberto de trigo
Vivia o espantalho Jeremias
Senti-se triste sem ter amigos
Sempre contando o dia a dia
Do amanhecer até o anoitecer
Jeremias sentia  falta de falar
De ter com quem conversar
Contar tudo que via acontecer
O preparo da terra com o arado
As pequenas sementes brotando
O gado do outro lado pastando
E o sol na serra todo dourado
Jeremias de olhos costurados
Braços cheios de fino capim
Boca em sorriso desconsolado
O nariz era comprido sem fim
E assim do nascer do sol no dia
Jeremias esperava da lua nascer
Era quando o milagre acontecia
Jeremias um pedido podia fazer
Em seu primeiro pedido lembrava
De pernas correndo de todo mundo
De vozes que doíam bem no fundo
Olhos tristes lágrimas derramava
Das vozes que repetiam sem pena
Rindo do  nariz comprido sem fim
De seus braços feitos de fino capim
Escondia da boca um dente apenas
Perdendo as pernas no peito em dor
Sem os pés a correr de seu desatino
Jeremias esperava do sol o calor
Na cabeça descobrir de seu destino
Pensando Jeremias na noite de lua
Um segundo pedido iria realizar
Com asas na imaginação tão sua
O Azul infinito poderia alcançar
Sonhando nas nuvens estrelas a brincar
Jeremias sentiu do vento amigo a brisa
No abraço apertado de quem sabe voar
Entre o verde e o azul fazendo divisa
Sem ver da distância da terra e o mar
O sol e a lua sorrindo no céu a brilhar
Jeremias esqueceu do tempo a passar 
Do pedido o prazo estava a terminar
Sentindo no corpo medo e muito frio
Perdendo dos braços o fino capim
Em meio ao vento gelado do desafio
De voar com o nariz comprido sem fim
Jeremias de olhar suplicante não sabia
Do sol e da lua escondidos ao desacato
Não sentia  se era de noite ou  era de dia
Pensou e chorando arrependeu-se do ato
Com os braços mais finos as mãos unidas
Junto ao magro peito chorado na certeza
Do último pedido na sina a ser cumprida
De viver feliz  a vida em sua real natureza
Jeremias de seus devaneios ouviu um canto
Devagar abriu os olhos olhando para o trigo
Amarelo aos raios do sol sempre um amigo 
Lembrou da lua e rezou fugindo do encanto.


Ramoore